Bolacha a bolacha, enche a Monstra o papo...




   

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"Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso"

Maria Teresa Horta * Morrer de Amor





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Friday, June 24, 2005
Segunda Parte =) *

Achei que a morte era uma daquelas coisas que deviam trazer um manual de instruções, um daqueles que explicasse como se deve reagir perante a sua chegada.
Lembrei-me que ele, com quase toda a minha certeza, saberia lidar com a situação. Saberia qual a quantidade exacta de lágrimas que poderia deixar correr, qual o tempo preciso em que poderia permanecer num estado de depressão. E agarrar-me-ia ao ver-me incapaz de seguir esses protocolos inúteis, essas estúpidas convenções que nos prendem ao chão, que nos colam à terra suja deste mundo humano. À terra, meu deus! À terra e não ao céu. Aquele céu em que ele sempre acreditou.
Tão certo e tão sábio. Tão ingénuo ao mesmo tempo. Confiava demasiado nas pessoas, aconselhando-me sempre a não agir da mesma maneira. Acho que ele não tinha noção da sua inocência. A solidariedade para com um outro, para ele, era das coisas mais importantes, mesmo que esse outro fosse oportunista. O José não via maldade nas pessoas. “A ajuda é o primeiro passo para um mundo melhor.”, costumava dizer. Demasiado pueril para a sua sabedoria. Não agia como uma criança, é certo, mas aquela confiança perpétua na bondade dos outros em muito pouco se revelou útil.
Acreditava em Deus ele… E não era apenas fiel, era praticante: rezava e ia à missa; acreditava na sua própria fé, na esperança e no sonho. De menino, guardava, ainda, o desejo de ser missionário na sua própria terra – “Tanta coisa bonita a esconder uma realidade de desgraça. Em Portugal é assim: há os monumentos, há o turismo e há o futebol; as crianças e educação ficam esquecidas neste país de analfabetos. Um dia hei de mudar este mundo tão pequeno somente com a magia das palavras e das acções.”.
Sim, o José era professor. Com o passar dos anos, percebeu que uma única disciplina não chegava para satisfazer a sua necessidade de ensinar. Afinal, ensinara sempre o mesmo não devia ter lá muita piada. Passou da “magia das palavras” para História e para a Geografia. Era um homem de humanidades, por assim dizer; talvez por ser demasiado humano a vida lhe tivesse dado tal vocação.
Foi meu professor, também. Não o encontrei atrás da secretária da frente numa sala de aula, nem o vi de pé a dar aulas a um auditório repleto de gente na faculdade, mas ele ensinou-me grande parte do que hoje sei. Na verdade, o José foi meu colega de carteira durante vários anos. Depois de ser colega de carteira, passou a ser apenas amigo, para sempre amigo.
As turmas mudaram e os anos passaram, mas aquilo que nos ligava manteve-se até ao dia em que ele morreu.
Que saudades!... Ó José, o que é que vou fazer sem ti? Quem me vai compreender? Ouvir? Acalmar? Quem vai limpar estas lágrimas que choro por ti?..

Posted at 11:02 pm by Cookie_Monster
2 Bolacha(s)  

Thursday, May 26, 2005
primeira parte

         Abracei-me a ele a chorar.

         Só ele me compreendia. Nunca percebi como o fazia mas, a seu lado, sabia que era impossível ser mal entendida. Era essa a grande vantagem da nossa amizade em relação às outras. Entre nós dois, a interpretação era sempre algo completo. Não havia qualquer espaço para falhas: um simples olhar bastava para explicar exactamente como nos sentíamos. Era simples; tão simples como aquele abraço, ou como aquelas lágrimas.

         Limpou-me os olhos e a cara já molhada e sorriu-me:

         - Calma, vai ficar tudo bem... não podes é deixar que esse teu olhar se entristeça, nem que o teu coração amargue ou que esse sal que vais chorando enfraqueça a tua alma. Tens de sorrir!

         Sorri, embora pouco, e ele sorriu comigo.

Foi assim a última vez que o vi: pouco tempo depois morreu.

         Na altura, não me apercebi muito bem o que se passara. Estava a dormir, sonhando connosco a conversar naquela esplanada de Verão. De repente, tudo à nossa volta desaparece e ele cai num abismo sem fim. Acordei sobressaltada. Não com o que dormia comigo, mas com o telefone. Era a irmã dele. Pediu-me para ir ter com ela ao hospital – ele tinha tido um ataque cardíaco. Um daqueles fulminantes, que não se sabe por que razão chegam de repente e nos levam a nossa vida, ou a vida de quem amamos, o que, em parte, acaba por ser a mesma coisa.

Cheguei perto dele poucos momentos antes do suspiro final, poucos momentos antes dele partir para longe deste mundo. Mas já não cheguei a tempo de receber a doçura dos seus gestos, ou do seu sorriso. Dei-lhe a mão e disse-lhe “Amo-te”. A reacção que recebi foi um “Obrigado” que murmurou pelo meio do odor a álcool, éter, e medicamentos. Percebi que ainda me tentou dar um daqueles seus sorrisos enternecedores, para me acalmar, como era costume, mas só os seus olhos dormentes me sorriram, já cansados. Somente depois disso fechou os olhos e partiu. 

Nunca tinha lidado tão de perto com a morte. Não sabia o que era perder alguém para sempre. E naquela primeira noite não consegui perceber muito bem o vazio que tinha em mim.

Cheguei a casa e aqueci um café. Não me apetecia dormir: não tinha sono, nem vontade. Sentei-me à janela a bebê-lo, e chorei. Apenas isso e nada mais. Não sabia como reagir. De certa forma, apetecia-me gritar, talvez fugir dali, quem sabe.. mas fugir para onde? Não sabia o que fazer.

A morte chegou a minha casa e eu recebi-a quase como se fosse bem-vinda. Deixei-a entrar e estilhaçar o pouco que ainda restava do meu mundo perfeito. Levou-me o José, o único homem que me amara verdadeiramente. O único que me ouvia e compreendia sem questionar o meu coração, os meus sentimentos, ou a minha vontade. O único que me amou a alma e o corpo sem nunca lhe tocar. E, agora, já nunca mais me poderia amar.


To be continued...




Aproveito para pedir desculpas por este meu desleixo e temporário abandono bloguístico, mas o tempo disponível e a falta de inspiração não me têm ajudado muito. Beijinhos de bolacha a todos *


Posted at 10:56 pm by Cookie_Monster
7 Bolacha(s)  

Sunday, May 01, 2005
Vazia, cheia de Nada

Sinto-me vazia sem ti. Completamente vazia, sem praticamente nada: sem desejo, sem sonho, sem vontade. Só com lágrimas.

Sinto que ao fim de tanto tempo de lutar comigo nada disso valeu a pena, porque tu não estás aqui. Não estás ao meu lado. Não me dás a mão quando preciso. Não falas comigo se eu não falar contigo primeiro - falas somente com quem amas, não comigo. Mas eu pensei que me amasses.

Ciúme?

         Não, de ti não tenho; nem das tuas amigas; nem dos teus amigos; nem de pessoa alguma que se cruze contigo. Não se tem ciúmes das pessoas – tem-se ciúmes do que elas fazem, do que elas nos fazem, do que nos querem, ou não, fazer.

Tenho é ciúmes dos olhares que não são meus, das palavras que não me dizes e das que ficam por dizer, daqueles teus suspiros que não me pertencem. Dos beijos e abraços que já não me entregas mais. E dos sorrisos... daqueles sorrisos que ainda hoje me prendem a ti, mesmo que não queiras.

         Não sei bem o que se passa. Estou vazia porque estou sem ti, mas sinto-me tão cheia de tristeza, de saudades e de nada. Sou um vazio cheio de nada, um vazio que só queria que aqui estivesses, para mim, como me prometeste.

Queria que me ensinasses como se gosta de alguém, como se ama alguém, como se mostra isso a alguém – como se fazem todas essas coisas que eu tive de aprender apenas porque, um dia, te atravessaste na minha vida. Sim, porque, para ti, eu não sabia amar. E tu, sabes?

         Sabes o quanto dói estar aqui, sozinha, a chorar por ti? O quanto custa deixar que as lágrimas corram em silêncio dentro deste meu coração que bate tanto por ti? O quanto magoa ver que a tua alma já não tem uma parte minha?

         Acho que não sabes. Ou, talvez, só não queiras saber. Ou não queiras ver.  Não sei. Mas, se os teus olhos nunca fugiram de mim, por que razão fugiriam agora?...

 

 

 

“Entre por essa porta agora,

me diga que me adora,

você tem meia hora p’ra mudar a minha vida,

vem, ‘vambora’,

que o que você demora é o que o tempo leva”

 

Adriana Calcanhoto * Vambora


Posted at 03:36 pm by Cookie_Monster
3 Bolacha(s)  

Wednesday, April 13, 2005
Not my words...

         Não tenho escrito nada ultimamente. Não que não tenha nada para contar, ou para desabafar, apenas não me sai nada de jeito. Pelo menos, nada por inteiro. As frases vão surgindo, suspirando levemente à medida que o tempo vai passando. Não tenho textos novos. Somente frases soltas e palavras livres que correm nos meus blocos, nos meus cadernos. Ando meio perdida, sem saber que fazer sem as minhas palavras.
          Mas, felizmente, há sempre palavras de outros que me encontram, no meio desta paisagem esquecida; uma paisagem que vive do que se escreve, e não do que se diz.



         "Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência."

Inês Pedrosa in "Fazes-me Falta"

 



Beijinhos de bolacha e tanto mais...


Posted at 11:12 pm by Cookie_Monster
3 Bolacha(s)  

Wednesday, March 30, 2005
My Brain...

Your Brain is 46.67% Female, 53.33% Male
Your brain is a healthy mix of male and female You are both sensitive and savvy Rational and reasonable, you tend to keep level headed But you also tend to wear your heart on your sleeve

 

         Está comprovado.. apesar de toda a lamechice o meu cérebro é quase metade masculino! lol
        Façam o teste e descubram qual o sexo do vosso cérebro! Acho que vão encontrar muitas surpresas por aí...


Posted at 11:14 am by Cookie_Monster
3 Bolacha(s)  

Thursday, March 17, 2005
Talvez

            Era a primeira vez que a via ali a passar. Não que reparasse muito em quem passava em frente da esplanada, mas sabia que seria impossível tê-la visto sem alguma vez notar. A pele dourada, o cabelo liso solto comprido, cor de mel e de Sol, os olhos morenos, o leve vestido vermelho que lhe dançava suavemente na cintura, o doce sorriso que os seus lábios traziam... Caminhando ao longo da rua, o seu corpo e a sua alma, ainda por descobrir, chamavam por si.

         Já ela desaparecera por entre a gente que por ali deambulava e ainda ele a fixava, imaginariamente, na esperança de a voltar a ver somente por mais um instante. Ainda se levantou. Ainda se esticou. Ainda correu até à última mesa da esplanada para a ver, só mais um vez. Só mais uma vez antes de lhe dizer Adeus.

         Desistiu.

         Reabriu o seu livro e tentou embrulhar-se da novo na história que lia. Mas não conseguia. Não conseguia mergulhar nas frases, não conseguia imaginar as personagens, não conseguia ler as palavras que ali palpitavam por ele. Apenas, a imagem dela se passeava na sua mente, enquanto relembrava o seu aroma a morango e canela.

         O cabelo grisalho, cansado da idade, pousou-se-lhe sobre o olhar azul. Suspirou. Limitou-se a fechar aquelas páginas cheias de nada e a esperar que o tempo passasse. A sua preocupação agora era outra. Concentrou-se apenas numa única acção: pensar nela. Guardar a mulher que passara momentos antes dentro de si.

         Era tão mais nova que ele! Transpirava a frescura e a alegria de quem ainda tem uma vida toda pela frente. Mesmo apressada dentro da multidão, recusava-se a fazer parte daquele burburinho de formigas inquietas. Escapava ao bulício infindável das formiguinhas trabalhadeiras que a rodeavam. Mantinha-se intocável no meio da revolução que por ela passava. Talvez fosse a Formiga-Rainha. Talvez agora fosse a rainha do seu coração. Talvez. Quem sabe?…

         O seu perfume ainda não se tinha dissolvido por completo. Intenso e penetrante, pairava no ar escondido, bem longe daquela rua encantada, bem perto daquele coração esquecido.

         Levantou-se – antecedeu a sua partida com medo de a voltar a ver. Mas a reticências daquela paixão furtiva obrigaram-no a ficar ali, parado, perdido em si, perdido de desejo e solidão.

         O sonho que vivera já se desvanecia com o pôr-do-sol. Não dentro de si, mas no ar que o rodeava.

         Foi então que decidiu caminhar para perto do seu sonho de magia e sedução, caminhar para onde pudesse sonhar sozinho e despreocupado, caminhar para junto da sua Mulher-Delícia, para um país onde os sonhos se sentem mais que a realidade.


Posted at 10:06 pm by Cookie_Monster
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Thursday, February 24, 2005
Ontem, como Hoje

            Respondi-lhe que a Megan era a melhor amiga que alguém poderia ter, que nunca o denunciaria, que fora eu a descobrir o que se passava. Fora eu a vê-lo de coração abraçado a outra pessoa.

         A sua cara empalideceu. Os seus olhos enevoados de fúria tornaram-se de novo, azuis como o céu. Aquele olhar escondido começava a fugir de mim, a fugir da verdade. Nada mais podia fazer senão isso: fugir.

         Guardou a mentira no bolso das calças e agarrou uma das minhas mãos com uma das suas. Com a outra, limpou as lágrimas que me espreitavam, dos seus olhos. Arrastou a manga da camisola até à chuva que caía para fora de si na tentativa de não deixar quaisquer vestígios daquela dor fingida.

         - I’m so sorry! I never imagined I could hurt you like this. I’m so sorry!… So sorry… - disse, chorando.

         Por momentos, deixei-me embalar por aquele choro melancólico, por aquela melodia sofrida, pelos murmúrios de perdão que gemia, pelas desculpas rasgadas que me entregava...

         Dizia, repetidamente, que me amava. Que me amava loucamente. Que eu era dele e que ele seria meu, para todo o sempre. Que nada nem ninguém alteraria o nosso amor. Sempre me disse isso, até hoje.

         Hoje encontrei-o, ao fim de muitos anos de ausência ininterrupta. Está igual. Os olhos de céu, os cabelos raiados de sol, a cara de anjo, o sorriso de lua cheia – tudo se mantém. Aparentemente calmo, transpirava a tensão de quem se reencontra, perdido em sentimentos guardados. Hoje, tal como Ontem, disse que me amava; hoje, sem palavras, com suspiros invisíveis e sussurros encantados que o seu olhar me cantava.

            Vi, hoje, um amor que nunca antes tinha sentido – um amor puro. Afinal, o nosso amor sobreviveu à passagem do tempo que corre, desesperado, atrás de nós; sobreviveu à distância que nos separou, uma distância construída de sonhos riscados na noite em que espelhei em mim a verdade de uma mentira; sobreviveu a tudo. Menos a nós.

         Ambos respirávamos o amor sentido pelo outro. Mas eu não queria respirá-lo, não queria uma parte dele dentro de mim. Preferi sufocar, preferi uma asfixia que me arranhava o peito e o coração a senti-lo de novo agarrado a mim, agarrado à minha vida; preferi largar o ar que me prendia à vida, para não me prender a ele.

         Rejeitei o seu amor porque ele despedaçou o meu. Arranhei-lhe a alma porque ele me esfarrapou o espírito. Troquei-o pela solidão do abandono porque ele me trocou  pelo impulso de um desejo, sedento de uma paixão que nunca existiu.

         Rejeitei-o porque o amo; porque o verdadeiro amor não se apaga, apenas tem tendência a ser guardado e fechado numa gaveta, se não for igualmente amado.

         A minha gaveta dele nunca se fechou...


Posted at 10:34 pm by Cookie_Monster
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Friday, February 11, 2005
Elevador

        

            Teresa chamou o elevador e começou a bater o pé insistentemente, na esperança de que ele se apressasse. Ouviu a porta do prédio abrir e fechar e virou-se para trás, quase instintivamente. Morava ali havia pouco tempo: ainda não estava habituada, ainda não conhecia os vizinhos, ainda não conhecia a sua casa como sua.

            Um homem, mais ou menos da sua idade, entrou. Sorriu-lhe e cumprimentou-a com  um “Good Evening” que lhe pareceu bastante simpático. Subiu as três escadinhas da entrada e, também ele, aguardou pelo elevador.

            Finalmente chegara. Ele abriu-lhe a porta e ela agradeceu. Ela perguntou-lhe qual o andar e ele respondeu “Third, please”. Carregou, então, no botão do terceiro andar e, seguidamente, no quinto, o seu. O elevador parou e ele saiu, sorrindo-lhe docemente.

            Entrou em casa meio atarantada. Seria impossível ser quem ela pensava. Aqueles olhos azuis como o céu, aquele cabelo (ainda que ligeiramente maior), aquele sorriso doce... sabia que o conhecia de algum lado. Posto isto, decidiu, nesse exacto momento, que já era mais do que altura  de deixar paixonetas platónicas de lado.

           

         Pousou a pasta preta que trazia do emprego e, por não estar com paciência de ir cozinhar, achou por bem ir jantar fora. Tomou um banho, vestiu-se convenientemente e procurou a sua mala, já pronta a sair.

            Subitamente, a campainha tocou. Quem poderia ser às 8 da noite?...não conhecia ninguém tirando os seus companheiros de trabalho e esses, de certeza, não lhe viriam bater à porta.

            Abriu a porta. E corou.

            - I was just wondering if you’d like to have dinner with me tonight… - disse ansioso e sorriu, retribuindo o enorme sorriso que o rosto dela desenhou

               - It would be really nice.

            Sentiu o rubor que lhe aquecia a face e reparou que ele também corara. As suas pernas começaram a dar de si, o seu corpo tremelicava, o seu coração disparou.

            Pegou na mala e juntou-se a ele. Seguiram juntos para o elevador. Nenhum dos dois se atrevia a dizer coisa alguma. Limitavam-se a olhar um para o outro e, assim que os olhares se cruzavam, sorriam muito doce e levemente e olhavam imediatamente para o chão, corando ainda mais. Pareciam dois adolescentes que descobrem que o amor à primeira vista, de facto, existe.

           

             Saíram do prédio. Estava frio e a chuva ameaçava cair. Afinal, era em Inglaterra que estavam.

            O silêncio entre os dois era invadido apenas pelo barulho dos carros que passavam e pelas músicas de Natal que se iam ouvindo perto das montras das lojas. Os passos que davam em sincronia estavam ansiosos. O silêncio barulhento das ruas da cidade não os afectava – estavam os dois dentro de uma bolha onde nada mais podia estar sem ser o ar que respiravam. O que suspiravam eram desabafos de uma paixão perdida nos braços do tempo; uma paixão irreal que vivia dos sonhos e da imaginação de cada um, presa a recordações de algo que nunca aconteceu.

            Entraram no restaurante e sentaram-se numa mesa de dois, junto à janela, fazendo-se acompanhar pelos murmúrios agitados da vida caótica lá fora. Ali instalados, olharam os olhos de cada um e voltaram a sorrir, corando loucamente. De novo dois adolescentes apaixonados, de novo um platonismo inquietante.

            Escolheram e comeram.

            Sem nunca trocarem palavras entre si, conversaram toda a noite, ali, sobrevoando pensamentos de ardor e fantasia.

            A sobremesa chegou: bolo de chocolate. Completamente absortos  naquele mundo pueril de paixões desencantadas, não repararam na coincidência de terem pedido a mesma coisa. Assim que o notaram, deixaram de sorrir para rir. Guardaram o rubor que lhes pintava o rosto dentro de si, para crescerem até ao momento em que se encontravam. Pegaram nas palavras que não usaram e montaram-nas num “puzzle” quase sem nexo. Atropelavam as sílabas e enrolavam as letras com gargalhadas sedentas de uma emoção quente que teimava em acomodar-se no coração de cada um.

           

            De regresso a casa, transpiravam a simpatia e a delícia de quem está satisfeito com o que sente. Os passos tenso que haviam dado, antes de uma refeição de calor, eram apagados por gestos desprendidos e movimentos soltos  de sedução instintiva.

            Os suspiros que encheram o elevador misturavam-se com as palavras trôpegas que se esforçavam por emendar. Os doces olhos azuis dele perderam-se de amores por ela. Discretamente sorriam para ela, na esperança de receber esse sorriso de volta.

            O elevador parou no 5ºandar. Ambos esticaram a mão para abrir a porta. Tocaram-se levemente: um beijo de fugida, como se não fosse suposto acontecer.

Sentiu-se quente por dentro, como há já muito não se sentia. Respirou fundo, como se suspirasse de prazer. Saiu e voltou-se para ele. Sorriu num tom de provocação.

               - Can I see you again?

            - Sure… I live just two floors above you – respondeu ela, com ironia

            Ele despediu-se com um olhar meio apaixonado e ela com um sorriso derretido.

          Entrou em casa e atirou-se para cima da cama, exausta. Sorriu e adormeceu, esperando que a manhã do dia seguinte chegasse mais cedo, para dormir até tarde.


Posted at 10:22 pm by Cookie_Monster
4 Bolacha(s)  

Sunday, January 23, 2005
Vestido Vermelho

        Quis guardar-te dentro de mim mas fugiste-me. Quis agarrar-te a mim mas tu largaste-me. Quis ser para sempre teu mas tu não quiseste. Sacudiste-te para que o meu amor por ti fosse esquecido. Rasgaste as cartas de amor que te escrevi, pisaste as flores que te dei, partiste o coração que te dei. Aquele coração que para sempre será teu.

         O teu vestido vermelho, aquele que tantas vezes vestiste para mim, está deitado sobre a cadeira do quarto. Vejo-te despida, enrolada nos lençóis de seda. A tua nudez espera por mim ofegante. Fecho os olhos e imagino-te na praia, de noite, a dançar com aquele vestido; os contornos do teu corpo cheios de nada já não me acordam. Já não gosto de te ver assim, despida. Não gosto que os teus mistérios desapareçam. Prefiro imaginar-te de vermelho, na praia, dançando ao som da Lua Cheia e do Mar, a ter-te aqui, à minha frente, sem nada para além do teu corpo.

         Chamas-me com o dedo, sorris doce e ligeiramente, gritas o meu nome num suspiro. Finjo não ouvir: não me quero envolver contigo dessa maneira tão leve e  tão leviana. Pelo menos, não Apenas dessa maneira. Quero-te minha, mas não quero o teu corpo – quero a minha alma dentro de ti.

         Levantas-te e dás-me a mão. Deitas-te de novo e pousa-la na tua cintura.

Não quero, não quero ser mais uma paixão ardente! Não quero ser apenas mais um homem na tua vida! Não quero ser alguém que lembrarás como parceiro na cama – quero ser parceiro para a vida!

Mas não te resisto... não resisto ao teu respirar, nem à tua pele macia; não resisto à volúpia do teu corpo nem à tua voz: não resisto à ideia de te fazer gemer por mim, pelo prazer que te entrego com o meu corpo. Não resisto... não consigo resistir! A minha mão desliza sobre ti devagar, para não correr o risco de perder qualquer pormenor.

Destapo-te. Agora, já só te quero ver nua, sozinha perante o meu ser. Indefesa, para que eu te possa consumir como tu me consomes. Percorro-te insaciavelmente em milhões de beijos inacabados mas já não me sabes a mel. Que aconteceu à tua doçura? Que foi que lhe aconteceu?... Onde guardaste a única coisa que me agarrava às tuas curvas? Onde?

Olho para a cadeira. “Porque não vestes o vestido vermelho?” pergunto-te ansioso. Gostava tanto de te ver, de novo, dentro do vestido, daquele vestido vermelho que já é mais meu que teu. Gostava tanto que voltasses a dançar comigo, de cabelos soltos, algures onde ninguém nos chegar.

Sem esse mel que me colava a ti, já não faz sentido procurar delícias em ti. Sem esse mel, precisas do vestido vermelho, precisas daquela chama escarlate que me prendeu a ti.

“Para que me queres vestida?” respondes, tentando uma fuga. Respondo-te que gostava mais quando a magia e o encanto faziam parte a nossa relação, que não gosto de ser descartável, que não gosto que me uses e me deites fora, que não gosto de ser alguém físico, que preciso do teu amor perto de mim. E o silêncio pousa sobre nós dois, despidos, dentro daquela cama vazia.

Levantas-te, pegas no vestido e veste-lo. Estendes-me a mão e agarras-me. Abraças-me e pões-me a mão na tua cintura. Murmuras um “Amo-te” muito desvanecido e soltas o cabelo. Olhas para mim, com as lágrimas nos olhos:

- Pensei que não gostasses do vestido...

- Pensei que não gostasses de mim... Queres dançar comigo?

Limpas as lágrimas e agarras-me para sempre, dançando toda a noite, ao som deste nosso amor eterno.




Beijos de bolacha a todos = *


Posted at 12:29 am by Cookie_Monster
10 Bolacha(s)  

Tuesday, January 04, 2005
When I'm weak...

           Por que razão os olhos choram?

         Por que razão a alma grita?

         Por que razão o coração sofre com os sentimentos que sentimos com mágoa e dor?

            Emoções.

            Palavras que se perdem no coração de quem as sente; sentimentos que se desfazem na multidão de palavras que me perseguem no pensamento; pensamentos que se escondem atrás de memórias apagadas com a solidão. Gritos calados que rasgam o som com o silêncio atordoante de quem angustia na busca de um momento em que as lágrimas de tristeza se tornam cristais de sonhos e ânsias irreais.

            Movimentos esquecidos num tempo incerto que com eles trazem o que de mais  belo há na amargura de alguém; agulhas de gelo que se entrelaçam no meu coração e que, depois, desaparecem na sua aflição; correntes de ouro, crivadas de diamantes que prendem e espetam a minha alma tornando-a numa mera assistência do sofrimento que sinto...

            Emoção.

            Ensandecer por algo que não se consegue ver; amor por algo que não nos deixa amar quem devemos; inconsciência escondida nas trevas dos sentimentos ocultos que nos ocultam os pensamentos despedaçando-os na escuridão do que não conseguimos explicar; perdição por uma paixão contínua que vai connosco até ao fim do mundo; ira de possuirmos algo que nos possui e nos leva mais longe que a imaginação; angústia de não conseguirmos ir além da vida sem esta dor perpétua perto de nós...

             Desespero.

            A pior das emoções. Aquela que nos consegue corroer e corromper com a raiva de quem rasga o céu com um só gesto. Aquela que nos estende no chão e nos obriga a prostrar os poucos bons sentimentos que, nesta altura, ainda nos restam. A que nos faz rastejar sob a sua vontade de humilhar o que somos impondo, somente, o que lhe resta: o declínio do que mais teme, a esperança.

            Esperança.

            O que arrastamos eternamente sem, sequer, sonharmos que existe. O que nos faz alar quando mais não podemos desejar. O que nos livra do abismo a que sucumbimos aquando do domínio do desespero a que, involuntariamente, nos submetemos. O que nos deixa viver quando a morte já nos apanhou. O que nos deixa sonhar quando já não mais dormimos.

            Sonho.

            Ilusão. Ambição. Desejo. Quimera. Uma fantasia do que somos tornada realidade face ao que nos foi imposto pela emoção que aprendemos a temer. Um simples capricho da imaginação que, de tão ingénua que é, ainda acredita na esperança do poderio sobre as emoções que nos levam à loucura de uma visão iníqua do que nos deixa perdidos no abstracto do que o coração ou a alma concebem nos seus idealismos de perfeição.

            Perfeição.

            Não desaparecer perante o choro dos olhos que nos espelham o que sentimos.

            Não deixar que a alma grite no seu maior desespero.

            Não permitir que o sofrimento do coração em ensejos penosos e atrozes dissimule o que sentimos e pensamos, tentando que o que em que acreditamos se veja no futuro antes  que o presente se mostre.



 

         Este texto já é bastante antigo: tem quase 2 anos. Resolvi pendurá-lo neste meu cartaz virtual porque gosto bastante dele, embora agora veja que talvez esteja um pouco rebuscado. Pelo menos mais rebuscado do que deveria. O tipo de palavras que usei não corresponde muito bem a quem sou, mas, no entanto, corresponde àquilo que sentia na altura em que o escrevi, e isso é que realmente interessa -  o momento em que as palavras são escritas.

Beijos de bolacha  para todos!

E já que estou aqui e tal, um Feliz 2005!


Posted at 11:39 pm by Cookie_Monster
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